NOTAS SOBRE A MORTE
Minha pequena tese sobre a morte é que ela, em si, não é o que apavora o ser humano. Lá no fundo - bem no fundo mesmo - todos reconhecemos nossa própria mortalidade, e sabemos que um dia nossa vez chegará.
O que realmente nos apavora é o modo como ela chega, e quão próximos estamos dela. Se não, confiram: milhares de pessoas morrem diariamente em conflitos mundo afora, e nós simplesmente ignoramos. Os mais sensíveis suspiram, soltam algum muxoxo desanimado e pensam algo como "esse mundo é um horror", ou "o mundo é assim mesmo, o que se pode fazer".
Mas se alguém próximo a nós bate as botas, sentimos imensamente. Mesmo que seja só um caso, um indivíduo, e não milhares - o que é uma tragédia muito pior, sob qualquer ângulo que se possa ver.
Isso é o que eu tinha a dizer sobre a questão da proximidade. Agora, sobre o modo: se alguém está muito velho ou extremamente doente, mesmo que esteja próximo de nós, nosso sofrimento é pequeno. Ou melhor: pode até ser grande, mas quando o desenlace se dá, há um suspiro de alívio, por entendermos que, enfim, era inevitável, e que a morte trouxe um fim digno a um sofrimento prolongado.
Quando o morto em questão é saudável e jovem, o impacto da morte é bem maior. Mas ainda assim existem certas circunstâncias mitigatórias, a depender do caso: por exemplo, se esta pessoa estiver sujeita a uma situação de risco - é um militar em missão no Haiti ou no Iraque, ou vive na favela da Rocinha, por exemplo. São casos um tanto desagradáveis, tristes mesmo, mas para os quais existem justificativas, vá lá, plausíveis, aceitáveis.
O mais duro de engolir, sem dúvida, é a morte fortuita, isto é, aquela que não decorre de nenhum dos casos acima; não há explicação, não há justificativa, não há motivo, nada. Nestes casos, até mesmo quem está apenas vagamente envolvido sente um baque tremendo.
Um mês atrás, mais ou menos, eu passei da faixa laranja para a verde no judô. Na mesma cerimônia, alguns outros também mudaram de faixa. Como as laranjas estavam em falta, o sensei pegou a minha faixa antiga e deu para um colega, que passou da faixa amarela para a laranja. Foi um ato singelo, mas carregado de simbolismo, e do qual eu me senti muito orgulhoso.
Na segunda-feira da semana passada, esse meu colega avisou ao sensei que iria fazer uma viagem ao Rio de Janeiro a trabalho, e por isso faltaria no restante da semana, mas estaria de volta nesta segunda.
Pegou o avião na quarta e passou a semana em Macaé, prestando serviço para a Petrobras.
No sábado, na viagem de volta, o avião em que viajava se espatifou contra uma montanha.
Dezenove pessoas, entre passageiros e tripulação. Zero sobreviventes.
Ele tinha 35 anos, um filho pequeno (5 ou 6 anos) que também fazia judô e uma esposa.
O nome dele era Jaques.
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Posted by Penin at 01:55 AM | 3 Artefatos