A frase feita reza que, a cada Copa do Mundo, tem-se o fenômeno da "Pátria de Chuteiras". O conceito, de forma pedestre, explicita a idéia de que, de tempos em tempos (mais precisamente, a cada quatro anos, ou seja, a cada Copa), os brasileiros são acometidos pela febre futebolística.
É uma meia-verdade. Não pela febre, que realmente ocorre com mais intensidade do que normalmente (afinal, fora das copas ela aparece sob a forma da torcida pelos times de cada um), mas pela parte da pátria.
Alguns teóricos da questão da identidade - Pierre Bourdieu à frente, salvo engano - defendem que alguém só é algo por oposição a outrem. Isto é, eu sou paulistano por oposição ao restante dos paulistas; paulista por oposição aos de outros estados (cariocas, gaúchos, baianos etc.); brasileiro por oposição a argentinos, americanos e outros.
Aí é que está: o único momento em que há a formação de uma identidade coletiva entre aqueles que são, no restante do tempo, uma massa amorfa de interesses regionais, paroquiais ou de outra natureza, é durante a Copa. A Copa do Mundo é o momento par excellence da expressão da identidade nacional, do vínculo coletivo patriótico moldado por oposição aos "inimigos" - isto é, às seleções adversárias.
No restante do tempo, fazemos pouco de nossos símbolos nacionais, desconfiamos (e freqüentemente roubamos) do Estado Nacional, desprezamos e pisoteamos nossas próprias leis, ignoramos nossa História, fazemos pouco de nosso futuro.
Podem reparar: reclamamos pouquíssimo de corrupção e fazemos ainda menos a respeito (está aí o Lula, prestes a ser reeleito, como testemunha e exemplo de minha tese), mas espumamos de ódio se nosso time de futebol perder para o Corinthians time que mais detestamos. Nós somos muito mais são-paulinos, corinthianos, palmeirenses etc. do que brasileiros. É como se fôssemos de nossos times por opção (ou tradição familiar, ou coisa que o valha) e brasileiros por contingência.
O mesmo raciocínio vale para esferas fora do futebol: religião, etnia, opção sexual, preferência musical sempre contam muito mais na formação identitária do que a questão nacional (e mesmo regional, se excluirmos o Rio Grande do Sul do cálculo).
Em resumo: só somos verdadeiramente uma Nação quando torcemos pela Seleção. Na falta de um projeto nacional, o futebol nos conforta e estimula. Mais ainda, o futebol nos redime: somos o quintal dos Estados Unidos, mas vencê-los no futebol é baba - e isso é o que importa, não é mesmo? Os japoneses patentearam meia Amazônia, mas aquele 4x1 é inesquecível. Os ingleses nos dominaram absolutamente durante a segunda metade do século XIX e primeira do XX, mas - vitória suprema - somos campeões incontestes no esporte que se diz bretão.
Não somos a "Pátria de Chuteiras". Vestimos, isto sim, as "Chuteiras da Pátria".
Currently feeling: contemplative